Paulinho era um menino muito travesso. Daqueles bagunceiros mesmo. Provavelmente todo mundo tem na família um garoto assim. Bebê ainda, nada ficava inteiro na casa dele. Era um pesadelo para a mãe. Sabe como é, as palmadas e o chinelo não fazem parte do modelo de educação para os novos pequeninos. O resultado era simples de perceber, vasos quebrados, telefone toda hora fora do lugar, as portas dos paneleiros, das estantes e dos guarda roupas abertas e fechadas com a força do pequenino. Mãe paciente também é mãe impaciente. O menino não tinha jeito. Então ela pensou: - Se eu ficar com ele acho que vou ficar maluca. Tenho que voltar a trabalhar. A dificuldade estava em quem iria ficar com o menino. Até mesmo para visitar alguém ela tinha problemas por causa do comportamento do Paulinho. Quando uma mulher de cabelos longos se aproximava ele logo pegava nos cabelos e puxava, quando via um homem arremessava todos os objetos próximos. Paulinho era terrível. Terrível mas muito bonito. Rosto corado, cabelos cacheadinhos, olhos azuis. Um anjo perfeito. Só tinha uma coisa. Não falava de jeito nenhum. Não pronunciava uma palavra, só resmungos e dedos apontados. Dono de um sorriso maravilhoso, era sempre o dono do pedaço, menos para as donas de casa. Quando Paulinho chegava tinham que tirar tudo, levantar as coisas, amarrar as portas, era realmente um incômodo. Claro que a mãe já não suportava e sobrou para a avó. Combinaram: - Mãe, eu pago pra senhora cuidar de Paulinho, trago as fraldas, as roupas, a comida e pago também qualquer coisa que ele quebrar, tá bom? A avó, resignada, aceito. Pensava a avó: - Comigo não vai ter problema, eu vou dar um jeito neste menino, ele vai aprender a não estragar nada e a me respeitar. A mãe foi trabalhar e o moleque nem sequer chorou. Já correu para a mesinha da sala e quebrou os vasos. A avó, desesperada só fazia correr atrás dele. Dos vasos foi para os enfeites, dos enfeitos para os controles dos equipamentos eletrônicos e por aí à fora. Filha trabalhando, neto pequeno em casa, a avó aposentada não sabia o que fazer. E o moleque continuava a não falar nada. Seis meses se passaram e continuou a mesma rotina. Sossego mesmo era quando ele ia embora. Já ia fazer quase três anos e não falava nada, só hummm huuuuum ããããããã e outros ruídos. A avó não sabia o que fazer, a mãe muito menos. Consultaram os médicos e não havia nada errado com o menino. Ele simplesmente não queria falar e também não deixava de ser o destruidor que sempre fora. Partiram para o benzimento, para os pastores, para os padres e nada. Um dia, sua avó foi no parquinho com o neto. Por causa de outras crianças, tinha que cuidar dele com mais atenção. De repente o menino parou e olhou para o céu. Outras crianças se ocupavam no escorrega, no carrocel, na areia. Paulinho olhava para o céu e via uma pipa cair. A pipa vinha caindo lentamente, com a longa rabiola condizindo a queda da armação e da sêda. Caiu nas mãos de Paulinho. Pegou o objeto voador virou para a avó e pronunciou a sua primeira frase: - A pipa. A pipa. É minha. Correu com o seu troféu para junto da vovó que o salvou dos meninos maiores que corriam para resgatar a voadora. Orgulho de vó é maior do que o de mãe. Não teve dúvidas, colocou todos os outros pra correr.
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