segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Cheiro de Tamarindo




Um dia que passa como se fosse um dia de morte. Um dia lento, um dia de desalento. Era assim que estava naquele 21 de outubro. O sol ameaçava sumir entre umas poucas nuvens, e talvez sumisse pra sempre... era o que aquela menina pensava. Saiu de casa cedo. Uma pequena mochila onde levava o resto de seus sonhos. Sonhos de menina, sonhos de casar, sonhos de ser feliz. Cabia naquele espaço uma pequena bíblia com o novo testamento, cinco calcinhas de cores variadas, o mesmo número de sotians, camisetas, duas calças jeans e uma saia. Vestido ela não tinha. Blusa, só aque carregava sobre a pele. A sandália já começa a desmanchar embaixo de seu pé. Pensava ela - que porcaria de calçado... e jurava nunca mais comprar nada na venda do Seu Mariano. Cansou e sentou embaixo de um pé de Tamarindo. Estava com sede e com fome. Mas queria seguir em frente. Não queria parar. Ainda tinha que chegar até a rodovia. Lá sim, ela achava, lá sim eu vou conseguir chegar rápido onde eu quero. Menina nova fugindo de casa. Deixou pra trás a mãe e seus dois irmãos. A mãe viúva vivia com a pequena pensão do governo que ganhava desde o falecimento de seu pai. Seus irmãos trabalhavam em qualquer coisa que aparecia, e lá, naquela cidade perdida do interior paulista, pouca coisa aparecia para se fazer. A menina nova estava cansada de tanto andar. Resolveu fugir quando sua mãe lhe disse que ela devia "namorar" o seu vizinho de sítio. Honório, este era o nome dele, havia se separado da sua primeira mulher e colocado a pobre no mundo, era enveredado em jogar cartas e também gostava de beber um pouco demais. Para a menina aquele era um homem asqueroso que vivia a cheirar suor e não apresentava nenhum bom aspecto de higiene pessoal. Os dentes amarelos e sujos era o que havia de pior, ainda que escondidos pelo bigode malfeito e grande que parecia escorrer azeite quando Honório comia. E então ela fugiu. A saudade já começava a apertar. A cadela Paloma, o gato Mio, o seu quarto onde ficava algumas bonecas de quando ainda era criança. Levantou-se. Olhou para trás pela última vez. Não sabia o que seria a sua vida dali pra frente. Mais dois ou três quilômetros e estaria na rodovia. O plano era simples. Pedir carona e ir para São Paulo. Lá, ia trabalhar, quem sabe estudar e ser alguém na vida. O plano era simples. Um caminhão parou. Ela entrou receosa e feliz para o seu novo mundo. O olhar do motorista já estudava o corpo jovem daquela moça. Ela entrou. Fechou a porta e partiu. Ninguém mais soube onde ela foi parar. Ás vezes, Paloma late lá no quintal, um cheiro de tamarindo invade a pequena casa e sua mãe acha que a filha está pra chegar.

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