Um dia que passa como se fosse um dia de morte. Um dia lento, um dia de desalento. Era assim que estava naquele 21 de outubro. O sol ameaçava sumir entre umas poucas nuvens, e talvez sumisse pra sempre... era o que aquela menina pensava. Saiu de casa cedo. Uma pequena mochila onde levava o resto de seus sonhos. Sonhos de menina, sonhos de casar, sonhos de ser feliz. Cabia naquele espaço uma pequena bíblia com o novo testamento, cinco calcinhas de cores variadas, o mesmo número de sotians, camisetas, duas calças jeans e uma saia. Vestido ela não tinha. Blusa, só aque carregava sobre a pele. A sandália já começa a desmanchar embaixo de seu pé. Pensava ela - que porcaria de calçado... e jurava nunca mais comprar nada na venda do Seu Mariano. Cansou e sentou embaixo de um pé de Tamarindo. Estava com sede e com fome. Mas queria seguir em frente. Não queria parar. Ainda tinha que chegar até a rodovia. Lá sim, ela achava, lá sim eu vou conseguir chegar rápido onde eu quero. Menina nova fugindo de casa. Deixou pra trás a mãe e seus dois irmãos. A mãe viúva vivia com a pequena pensão do governo que ganhava desde o falecimento de seu pai. Seus irmãos trabalhavam em qualquer coisa que aparecia, e lá, naquela cidade perdida do interior paulista, pouca coisa aparecia para se fazer. A menina nova estava cansada de tanto andar. Resolveu fugir quando sua mãe lhe disse que ela devia "namorar" o seu vizinho de sítio. Honório, este era o nome dele, havia se separado da sua primeira mulher e colocado a pobre no mundo, era enveredado em jogar cartas e também gostava de beber um pouco demais. Para a menina aquele era um homem asqueroso que vivia a cheirar suor e não apresentava nenhum bom aspecto de higiene pessoal. Os dentes amarelos e sujos era o que havia de pior, ainda que escondidos pelo bigode malfeito e grande que parecia escorrer azeite quando Honório comia. E então ela fugiu. A saudade já começava a apertar. A cadela Paloma, o gato Mio, o seu quarto onde ficava algumas bonecas de quando ainda era criança. Levantou-se. Olhou para trás pela última vez. Não sabia o que seria a sua vida dali pra frente. Mais dois ou três quilômetros e estaria na rodovia. O plano era simples. Pedir carona e ir para São Paulo. Lá, ia trabalhar, quem sabe estudar e ser alguém na vida. O plano era simples. Um caminhão parou. Ela entrou receosa e feliz para o seu novo mundo. O olhar do motorista já estudava o corpo jovem daquela moça. Ela entrou. Fechou a porta e partiu. Ninguém mais soube onde ela foi parar. Ás vezes, Paloma late lá no quintal, um cheiro de tamarindo invade a pequena casa e sua mãe acha que a filha está pra chegar.
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