segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Juvenal era o cara

Juvenal era o cara.Na comunidade onde morava não havia quem não gostasse dele. Sempre solícito, era o primeiro a ajudar qualquer um. Sabe aquela pessoa boa, sempre de bem com a vida, capaz de repartir o seu ovo frito pra não ver o outro com fome. Assim era Juvenal. Se criara por ali, filho da Jandira e do Seu Moisés. O pai era um caboclo forte, vindo do norte e mesmo atarracado, mostrava em seus setenta e três anos a força áurea dos tempos em que trabalhava de saqueiro no porto de Santos. Dos filhos, gostava mesmo era de Juvenal. E este era o perfil daquele filho de retirante que sempre se esforçava para fazer e auxiliar quem precisasse. Naquela segunda-feira dava pra escutar o barulho dos móveis quebrando na casa de Madalena. Gritos de mulher, choro de criança e uma curiosidade angustiante de todos que presenciavam o ar de violência despertado pelo marido de Madalena. -Vagabunda, piranha, filha da puta... gritava Anísio. Se ouvia a voz das crianças implorando: - Não pai, não bata na mãe, não bata na mãe, não pai... E o estalar de objetos quebrados não cessava. Choro de mulher é doído na alma de qualquer um. Imagine para Juvenal, sempre tão certo, tão querido, tão amável. Logo algum vizinho da viela já dizia: - E aí Juvenal, não vai fazer nada? Os pais não queriam que o filho se envolvesse. Eram daquele tempo e daquela máxima que em "briga de marido e mulher, ninguém mete a colher". Juvenal não pensava assim. Contrário a qualquer violência e qualquer ato hostil, não permitia nem mesmo que um cachorro maior, destes de rua, batesse em um menor. Já correu pra casa da Jandira, bateu na porta, foi entrando e pedindo: - Se acalma, homem. Assim você vai fazer uma loucura e acabar preso. Anísio, voltando a sí, olhou para as crianças chorando e para a mulher machucada e até tentou fazer voltar tudo ao normal, mas aí já era tarde. As vizinhas já entraram e pegaram os dois filhos do casal no mesmo instante em que arrastavam Madalena para cuidar de seus ferimentos. Vendo seu mundo desabar, Anísio tentou impedir que saíssem, mas confrontar Juvenal era pedir para apanhar de todos na comunidade. Bateu nos bolsos, procurou alguma coisa apalpando por cima da calsa, buscou uma blusa e uma camisa limpas, sentenciou com os olhos Juvenal, e sem dizer mais nada, abriu caminho por entre os moradores, saindo da viela e buscando a rua principal. Noite de primavera onde os insetos ficam insistentes, com alguns tapas espantou as mariposas que achavam de voar sobre sua cabeça. Virou a esquina e sumiu. O tempo passa e algumas dores também passam. Anísio não voltara mais para aquela freguesia. Madalena se batia para criar os filhos. Juvenal via a dificuldade da moça e volta e meia levava algumas coisas pra ela e principalmente pras crianças. Atencioso, carinhoso e ainda jovem, despertou em Madalena outra necessidade. Cerca de quatro meses depois da surra, Madalena já sentia atração por outro homem. Juvenal foi se apegando às crianças e à Madalena. Juntaram os panos, dividiram as despesas e até sonhavam com um casamento de verdade. Era uma situação que os pais de Juvenal não gostavam. Tinham medo do que podia acontecer. Conselho não adiantava para os corações embalados. O negócio era aceitar e acreditar naquele novo amor. Dois anos se passaram. Aumentaram o barraco, fizeram uma lage, compraram novos móveis e finalmente marcaram o dia do casamento. Juvenal queria a benção do pastor para os dois. Madalena parecia realizar um sonho que já estivera muito distante dela. Uma semana antes da celebração Juvenal saiu para comprar as alianças. As horas passavam, passavam e ele não chegava. O zum zum zum aumentava na favela. Será que ele tinha fugido? Não. Juvenal nunca faria isso. E naquela noite ele não veio. Foi uma noite que ninguém conseguiu dormir. Foi uma noite sem fim. Sete horas da manhã, chamam Madalena no portão de sua casa. Os olhos tristes já denunciam o que aconteceu. Ela vai, seguindo a multidão, desce o barranco e chega até o valetão que recolhe o esgôto daquela vila. Lá está Juvenal. Em seu bolso, Madalena reconhece a aliança que Anísio usava quando eram casados.

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