terça-feira, 10 de agosto de 2010
O MENINO LUA
-Acorda Jeremias, ô menino danado, já passou da hora de sair da cama moleque... Jeremias não acordava nem que jogassem um balde de água em sua cabeça. Paciente, seu pai já sabia o que tinha que fazer. O cheiro de café novo e o odor do bacon misturado aos ovos e um pouco de cheiro verde exalava um aroma de manhã de fim de inverno, já quase na primavera, onde os hálitos ficavam sempre melhores. E foi batata. Jeremias acordou, espreguiçou o corpo molengoso e finalmente saiu da cama. Não que ele fosse um menino preguiçoso ou mal educado daqueles que respondem a tudo e se recusam a fazer qualquer coisa, não. Jeremias tinha um apetite pela cama. Gostava mesmo era de sonhar. Chegou mesmo a contar pra seu pai que sabia sonhar com qualquer coisa que quisesse. Por exemplo, se jogou bola e seu time perdeu, na mesma noite ele resolvia isso. Deitava, fixava o pensamento no jogo, nos detalhes mais importantes, e pimba... sonhava que ganhava o jogo e se quisesse ainda fazia o gol. E foi por causa disso que recebeu o apelido de "Jeremias Aluado", que como um apelido grande, foi se refinando com o tempo, e de Jeremias Aluado passou para Aluado até que chegou em sua forma final, o "Lua". E era sim, doze anos de idade e uma Lua em sua vida. O fato é que o menino tinha mesmo um grande domínio sobre os seus sonhos. Sabe como é vida de adolescente, todo aquele desconforto químico que transforma o ser humano em uma torrente de desejos e medos. Lua era como outro menino qualquer nesta fase da vida. Mas agora tinha uma grande vantagem. Uma vantagem que os outros não tinham. O sonho. Um sonho tão real e facilmente manipulado por sua mente que o tornava um garoto especial. Podia estar com qualquer garota, resolver qualquer sentimento e ainda por cima, continuar o sonho na noite seguinte. Seus amigos o admiravam muito por isso. Era realmente invejado. Foi aí que aquela turminha viu o que seria uma das mulheres mais lindas que aparecera naquele local. Tinha os cabelos loiros e os olhos claros e quentes como uma heroína de video game. O corpo ficava ainda mais atrativo com a calça de couro adornada por um cinto largo, botas de cano médio e uma espécie de corsolete que deixava o umbigo à mostra. E os lábios heim? Grossos como mingau de aveia e rubros como nectarina... Era uma mulher realmente demais. Lua já sabia o que fazer aquela noite. Deitar e sonhar com aquela pequena visão do paraíso, que ouviram eles, chamava-se Pricila. No outro dia, os garotos já esperavam por Lua no portão de casa. Estranharam quando ele chegou e não quis falar no assunto. Ranhetaram, ranhetaram até que ele se abriu, meio sem graça, ele disse: - Sonhei com a Pricila sim. Sonhei tudo só que quando ela tirava a roupa, no meu sonho, ela não era mulher... -Como, não era mulher? perguntou um dos mais afoitos. - E você, não domina mais o sonho? - Pois é, eu só dominava até este ponto, e por mais que eu quisesse tirar o pinto dela, não conseguia, olhava e tava lá, aquela coisa feia... Foram jogar bola e pensar em outras coisas, como fazem todos os garotos. Outro dia, Lua ouviu seu pai falar com sua mãe. - Lembra mulher, o Reinaldo, filho do Seu Gonçalves, lá perto do rio? - Sim, claro que lembro. Onde foi parar aquele rapaz? - Voltou pra cá. Mas agora não é mais um rapaz, é uma mulher. Você não reparou naquela moça chamada Pricila que está aqui no bairro? - Não é possível. Disse a mãe. Enquanto os pais continuavam a falar, Lua saiu de casa com duas frutas na mão. Não sabia ao certo o que dizer para seus amigos. Um pouco também por vergonha, pois pensava ele - será que eu fiquei com um homem enquanto dormia? Lua olhou para o outro lado da rua e gritou: - Pedro, ei! Vamos jogar bola ou soltar pipa?
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