quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O QUE É QUE VOCÊ ACHA?

- O que é que você acha? me perguntou sem certeza até mesmo do que ela achava. E esta dúvida agora, levaria a que? Certamente, se eu soubesse, não teria participado daquele acontecimento. E isso era mesmo tudo que eu queria. Não ter conhecimento de nada, não saber de nada, omitir o meu juízo em uma situação que era por demais, constrangedora. - Diga, cara, por favor, fale logo, o que é que você acha? Bem, para ter sentido, é preciso contar o início desta história. Fazia muito tempo que eu não via Maria Helena. Heleninha da minha infância, Heleninha das primeiras brincadeiras, Heleninha de passa-anel, Heleninha de casamento-atrás-da-porta, Heleninha minha amiga, minha irmã, minha infância. Maria Helena havia mudado de cidade quando quanto tínhamos doze ou treze anos. Ela foi embora quando começava a reinar os seus hormônios e já se percebiam algumas mudanças por baixo de sua camiseta. A voz ficou mais poderosa e rouca e o seu poder sobre mim também. Engraçado como nos meninos o processo é lento e diferente. Heleninha se desenvolvia e eu continuaria por muito tempo um moleque mirrado de voz esganiçada acorcundado pela magreza e à procura desesperada dos primeiros pelos na cara e no... bem você sabe onde, né? E desde criança, devo admitir, Heleninha me dominava. Eu sempre fazia o que ela queria, sempre brincava do que ela gostava e nunca era capaz de confrontá-la. Era um domínio permanente mas necessário para mim. Fui me acostumando. Depois que ela foi embora nunca mais a vi. Soube uma ou outra notícia por seus parentes que haviam ficado em nosso bairro. Me acostumei com a sua ausência. E, na verdade, depois de uma época era como se ela nem sequer tivesse existido. E não é que Maria Helena voltou? Veio à minha casa. Entrou e foi logo falando: - Gustavo, que saudade. Lembra de mim? - Claro que sim. respondi. E ela foi falando tudo que havia feito, vivido e acontecido até naquele minuto. Porém, o mais intrigante era o caso que Heleninha expunha e que motivara o seu encontro comigo. Ela estava noiva. E por falar nisso, estava ali, na minha frente, vestida de noiva. Linda, por sinal. E me contou: - Gustavo, descobri que meu noivo me traiu ontem. Ele participou de uma despedida de solteiros, bebeu demais e me traiu. E veja, descobri isso pela Internet, vê se pode. Um amigo dele tirou as fotos e colocou pra que todo mundo visse... E Heleninha foi despejando tudo que havia acontecido. Ela se casaria em poucas horas, mas queria se vingar do noivo. Não teve dúvidas e me procurou, afinal de contas, eu sempre fui seu amigo de primeira hora, para tudo que desse e viesse. Ela sabia que eu iria até o fim. Tinha certeza de que eu faria tudo que ela pedisse ou quisesse. Maria Helena era uma mulher linda. Eu pensei "que noivo imbecil trair uma mulher como estas logo na véspera do casamento." Só que o que ela me pedia não era fácil pra mim. E eu me vi daquele jeito, uma noiva linda, em meu quarto, querendo vingar-se do noivo e me perguntando: - O que é que você acha, hein? Engoli a seco. Uma estranha compreensão que só acontece entre os homens tomou conta de mim. - Eu acho que não, Heleninha. Eu não posso te ajudar. - Mas, você nunca disse não pra mim, o que é que tá acontecendo? - Veja, Heleninha, veja bem e claro. O que você quer fazer não é certo, você pode se arrepender pra sempre. - Será, Gustavo? O que você faria? - Eu perdoaria, Maria Helena, ou não casaria, mas jogar ácido nas partes íntimas de seu noivo, e ainda por cima, durante a cerimônia, e pedir que eu te tire dali? Ah, isso é demais.

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