Quem disse que o brasileiro não sabe escrever? Ora, ora... é um engano. Sabe sim. Tem um jeito diferente de expressar o que sabe, mas não significa que não domine a arte da comunicação. Vamos andar por aí, fazer um passeio pequeno e reparar no que vemos pela frente. Primeiro, aquela placa de uma Oficina que escreve "ofisina". Tá errado? Pra quem? Pra quem não consegue entender. A arte de comunicar não pode retalhar aqueles que não tiveram a graça do conhecimento. E como é mesmo que se escreve... hummm ... aquela coisa de beber... haaa.... chá? Xá? Isso é importante? Não estamos compreendendo de qualquer forma? Ser didático é mesmo um saco. Mas continuemos, andando, lendo, pesquisando. "Assôgue do Mariano", "Bicecretaria do Antunes", "Vendece Avon da Joana", "Fasemos depilasão, da Inês", são todos erros tão bonitos, de uma riqueza tão grande, que mostra a que apesar do pouco estudo e das chances parcas, a iniciativa de nosso povo é brilhante. E vai em fente, sabendo ler ou não, escrevendo certo ou não, vai em frente acreditando no amanhã.
Tinha uma frase de uma música do Raulzito que ele dizia "Queria ser burro, assim não sofria tanto". Tem horas que chego a crer ele podia ter razão. Nós que lemos, discutimos e escrevemos temos uma tendência enorme a sentir um vazio, um peso da incapacidade de transformar, uma relutância em aceitar o que é simples, o que é puro, o que é honesto. E podemos acreditar que o erro é honesto. O erro é absoluto, incapaz e bruto. O erro não é medido, é percebido. Já o acerto parece ser sempre temporal. Não dura pra sempre. As coisas mudam, o mundo muda, as éticas se transformam e as estéticas se renovam. Nem o feio nem o belo são sempre a mesma coisa. Somente o erro.
Então podemos fazer uma tentativa. Tentar entender o pouco letrado como algo muito especial. Ver naquele que escreve a faixa errada o potencial comunicativo que por vezes nos falta. Veja. Ele ousa, ele escreve, ele comunica. Enquanto muitos dos mais letrados continuam a sofismar, o mundo segue escrevendo errado. Uma história que ainda temos que contar.